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MANIFESTO: Banir os smartphones das salas de aula pode gerar um colapso cognitivo.

Posted on dezembro 19, 2025dezembro 19, 2025 By Professor Paulo de Tarso

Eu professor Paulo de Tarso (PCD) pessoa com deficiência escrevo este manifesto em primeira pessoa porque eu me recuso a tratar esse debate como se fosse apenas uma briga entre “ordem” e “bagunça”. Eu não estou falando de moda pedagógica. Eu estou falando de sobrevivência cognitiva, cultural e civilizatória em um mundo que já virou rede e que não vai “desvirar” só porque a escola decidiu proibir.

Sim: eu acredito que uma boa parte das pessoas que apoia o banimento dos smartphones dentro da sala de aula não entendeu que o mundo ao nosso redor realmente mudou. E quando eu digo “mudou”, não é metáfora. Mudou o jeito de trabalhar, de se informar, de formar opinião, de se relacionar, de produzir conhecimento, de fazer política, de consumir cultura, de aprender. Mudou até o jeito de sermos manipulados.

E, exatamente por isso, eu afirmo: banir smartphones da sala de aula, como solução central, é um colapso cognitivo. É a escola desistindo de ensinar a ler o tempo em que vive.

Eu não defendo bagunça. Eu defendo formação.

Antes de tudo: eu não romantizo celular. Eu não finjo que ele não distrai, não vicia, não bagunça a atenção, não alimenta ansiedade, não cria comparação social, não puxa o aluno para o entretenimento infinito. Eu sei disso. Eu vejo isso.

Mas eu também sei de outra coisa: proibir não educa. Proibir só empurra o problema para fora do portão da escola, onde ele vira descontrole, vício silencioso, desinformação, dependência emocional e manipulação algorítmica, sem professor, sem mediação, sem ciência e sem método.

Se a escola não ensinar o estudante a lidar com o smartphone, quem vai ensinar? O TikTok? O influencer? O grupo de WhatsApp? O algoritmo? A publicidade? A polarização?

Quando eu escuto “tira o celular e resolve”, eu escuto uma frase parecida com outra, antiga e perigosa: “fecha os olhos e o monstro some”.

Nós já erramos antes. E pagamos caro.

Eu lembro, e eu faço questão de lembrar, do que aconteceu quando a internet começou a chegar em massa, mais ou menos vinte anos atrás. O que muitas escolas fizeram? Baniram. Demonizaram. Trataram como ameaça moral. Como distração. Como “coisa que não presta”.

E qual foi o resultado histórico disso?

Nós criamos uma multidão de pessoas que usa internet, mas não sabe usar internet.

  • Pessoas que confundem opinião com evidência.
  • Pessoas que compartilham qualquer coisa sem checar.
  • Pessoas que caem em golpe, corrente e fanatismo digital.
  • Pessoas que não sabem pesquisar de verdade.
  • Pessoas que não sabem diferenciar fonte confiável de teatro de indignação.
  • Pessoas que não sabem ler dados, contexto, intenção, manipulação.

Isso tem nome: analfabetismo em comunicação em rede.

E agora querem repetir o mesmo erro, só que pior, porque hoje a rede não é “um lugar onde eu entro”. A rede virou o próprio chão do mundo. Ela está no bolso, no olhar, no trabalho, no afeto, na política, na cultura, no consumo. Está em tudo.

Negar o smartphone é negar a fase humana que começou

Eu não vejo tecnologia como “objeto neutro” nem como “vilã”. Eu vejo tecnologia como aquilo que sempre foi na história: um elemento das transformações das fases da vida humana.

A escrita transformou a memória e a organização social.
A imprensa transformou a circulação de ideias.
O rádio e a TV transformaram a opinião pública.
A internet transformou a comunicação.
E agora, os smartphones, junto com redes sociais, IA, plataformas e algoritmos, transformaram a própria linguagem do cotidiano.

Nós estamos iniciando uma nova fase de relacionamentos e linguagens em rede. Isso muda como o estudante aprende, como ele presta atenção, como ele se informa, como ele se reconhece, como ele se torna sujeito.

Então eu pergunto, com seriedade:

Será que, mais uma vez na história da educação, a sala de aula que deveria preparar os jovens do ensino fundamental para a vida, vai se comportar como criadoura de incompetências intelectuais?

O colapso cognitivo não é “usar celular”. É não aprender a pensar na rede.

Quando eu digo “colapso cognitivo”, eu não estou falando só de distração. Eu estou falando de algo mais profundo: a quebra do processo de aprendizagem real diante de um mundo que exige leitura crítica, navegação informacional, autonomia e responsabilidade.

Uma mente que não aprende de verdade vira terreno fértil para:

  • comportamentos radicais por impulso e pertencimento;
  • opiniões sem embasamento científico, só repetição de grupo;
  • “verdades” montadas por recortes;
  • ódio como identidade;
  • manipulação como rotina.

E talvez o mais grave: uma mente sem aprendizagem real pode ser puxada como marionete.

Porque quem não sabe pesquisar, checar, comparar fontes, entender intenção e reconhecer manipulação… acaba achando que escolhe quando, na prática, está sendo escolhido.

Banir é mais fácil do que educar. E é por isso que seduz.

Eu entendo a sedução do banimento, principalmente porque sou uma pessoa com deficiência. Ele dá sensação de controle. Ele entrega um silêncio imediato. Ele produz uma sala “aparentemente” mais obediente.

Mas eu não quero uma escola que treina obediência.
Eu quero uma escola que forma autonomia.
E autonomia não nasce do vazio. Autonomia nasce de mediação, método, prática e crítica.

O smartphone é o laboratório perfeito para ensinar:

  • atenção como habilidade treinável (e não como “dom”);
  • autocontrole com ferramentas concretas;
  • ética digital;
  • leitura de mundo e de dados;
  • verificação de fatos;
  • argumentação baseada em evidência;
  • produção responsável de conteúdo;
  • pesquisa de verdade (não “copiar e colar”).

Proibir tudo isso é fechar o laboratório e depois reclamar que o estudante não aprendeu.

O que eu defendo, então?

Eu defendo um caminho mais difícil, e por isso mesmo, mais educativo:

1) Regras claras, não proibição cega

Celular não é “livre geral”. É ferramenta pedagógica com rotina, momento e propósito.
Uso fora do combinado tem consequência. Mas consequência não é “apagão cultural”; é disciplina pedagógica.

2) Aulas que ensinem comunicação em rede

Não basta dizer “não use”. Eu ensino:

  • como identificar fonte confiável;
  • como checar informação;
  • como reconhecer desinformação e manipulação emocional;
  • como entender algoritmo e bolha;
  • como discutir sem desumanizar;
  • como construir opinião com base em ciência e dados.

3) Produção, não só consumo

O estudante precisa produzir:

  • resumo crítico,
  • mapa mental,
  • áudio com roteiro,
  • mini-documentário,
  • entrevista,
  • pesquisa com referência,
  • apresentação com dados,
  • portfólio digital.

Rede não é só distração. Rede é linguagem. E linguagem se aprende praticando.

4) Proteção real: mediação, não abandono

Eu protejo o aluno quando eu ensino ele a se proteger.
Eu não finjo que ele não tem acesso. Eu preparo para o acesso.

5) Parceria com famílias

Família não pode ser só “fiscal”. Família precisa de orientação, combinados e formação simples. Se a escola não dialogar, a casa vira refém do algoritmo.

Meu compromisso como educador

Eu me comprometo a não transformar a sala de aula num museu de um mundo que acabou.
Eu me comprometo a não ensinar como se estivéssemos em 2005.
Eu me comprometo a não tratar o aluno como problema — e sim como sujeito em formação.

Eu quero um estudante que:

  • saiba ler o mundo sem ser engolido por ele;
  • saiba pesquisar antes de afirmar;
  • saiba discordar sem destruir;
  • saiba reconhecer manipulação;
  • saiba usar tecnologia como extensão de pensamento, não como prisão de atenção.

Isso dá trabalho. É mais difícil do que proibir.
Mas é exatamente por isso que é educação.

Conclusão: a escola que proíbe, o futuro fabrica um presente frágil

Banir smartphones da sala de aula pode parecer coragem.
Mas, para mim, é recuo. É medo com roupa de disciplina.

O mundo está em rede. A linguagem está em rede. A manipulação está em rede. A economia está em rede. A cidadania está em rede.

Se eu tiro o smartphone e finjo que resolvi, eu não educo. Eu adio.
E quando eu adio, eu entrego a formação do meu aluno para quem não tem compromisso nenhum com ele: o algoritmo.

Por isso eu encerro este manifesto com a frase que guia minha posição:

A sala de aula não pode ser o lugar onde se proíbe a realidade. Ela tem que ser o lugar onde se aprende a viver nela, com consciência, ciência e humanidade.

Professor Paulo de Tarso: pessoa com deficiência.

Problemas postos para se pensar.

Como a integração dos smartphones pode prevenir o analfabetismo digital e o colapso cognitivo?

Por que a escola deve mediar a realidade digital em vez de apenas proibi-la?

Quais são as consequências pedagógicas de ignorar as mudanças nas linguagens e relações humanas?

TI NEWS Tags:manifesto

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